terça-feira, 7 de setembro de 2010

Primeiro de Setembro de Dois Mil e Dez.

Sempre minha válvula de escape foi essa, sentar e escrever; e hoje, pela primeira vez pensei se devia ou não pegar o lápis e o papel; e confesso que isso me causou certa estranheza. Aliás, tudo hoje está estranho. Queria saber o que é aquilo que fez comigo, sentar, respirar e ouvir sua voz de olhos fechados não me parecia algo fora do comum, e foi. Em um minuto você me fez pensar mil coisas e eu já estava chorando, sem perceber, sem pensar, sem ter vergonha ou me importar com qualquer coisa; já estava longe, em outro lugar, com outras pessoas, sentindo outros cheiros e outros sentimentos. Por alguns instantes pensei que fosse desmaiar, minha cabeça estava pesada, estranha; me senti mole. Você falou tanta coisa, e cada palavra parecia ter sido estudada antes, parecia que você sabia o ponto certo onde tocar para me fazer chorar, que era o que eu tinha te pedido. E por falar em toque, cada toque seu no meu braço direito era um choque. Foram sei lá, os três ou cinco minutos mais intensos, longos e doloridos. Quando você me mandou abrir os olhos parecia que as pálpebras haviam colado, talvez eu não quisesse abri-los, e ao abrir senti muita, mas muita vontade mesmo de chorar. Não aquele choro involuntário que já estava escorrendo pela minha bochecha, mas queria enfiar o rosto nas mãos e chorar de soluçar, era muita coisa, mas com uma força que não sei de onde veio, me controlei. Você me disse pra ficar ali, daquele jeito, sozinha. Disse que estava com medo de me deixar sozinha e eu também estava com muito de ficar. Você fechou a porta e o que teria feito logo era levantar, trancar a porta e chorar muito. Mas você voltou e viu com seus olhos que eu estava sentada, no mesmo lugar, e do mesmo jeito. Fiquei ali por mais alguns minutos, sem pensar em nada, olhando para um ponto fixo. Então levantei, tranquei a porta e me senti covarde quando pensei pela primeira vez e pensei: “E agora?”. Mais covarde ainda, sentei no sofá, olhei em volta e peguei meu notebook. Liguei. A procura de um refúgio. Mas fugi de mim mesma e de qualquer escrita minha que servisse como desabafo. Queria alguém ou algo que me fizesse esquecer. Foi impossível. Então senti que ficar sozinha não ia me matar, e lembrei que em 20 minutos a Carol ia chegar. Eu não queria falar e nem ver ninguém. Desliguei o notebook e por um tempo fiquei indecisa se levaria ou não ele comigo. Decidi que não. Não queria MSN, Twitter e nem nada agora. E se eu decidisse enfim escrever, que fosse com folha e lápis. Peguei uma bolsa e espero ter jogado dentro dela tudo que fosse precisar até as 10 e meia da noite, hora que vou ter que enfrentar com ou sem coragem o fato de voltar para casa. Recebia suas mensagens o celular e cada vez mais ia ficando difícil de responder qualquer coisa. Peguei o elevador e não ouvia nada que aquela mulher falava comigo, o som estava abafado, só concordava e sorria. Eu estava fugindo. E quando coloquei o pé na rua e dei as costas para o meu prédio me senti um pouco melhor. Dez passos para frente e eu já estava confusa de novo. Pra onde eu ia afinal? Decidi sem pensar muito parar logo no Trianon e não andar esses três quarteirões até a Cásper. Quando passei pelo portão do parque não soube para onde ir, virei a primeira a esquerda e quando me dei conta já estava sentada em frente a um parquinho para crianças, com areia no chão e direto a balanço, escorregador, gangorra e tudo. Por uns 15 minutos só observei, me lembrei de como ter menos de 10 anos era mais fácil, e como era gostoso quando depois de entrelaçar uma corrente na outra do balanço ir desenrolando e balançando ali, sentindo aquele vento no rosto. Estiquei as pernas no banco e comecei a escrever. De um lado estavam as crianças, as babás, as mães; do outro um barranco cheio de folhas secas e um gato preto deitado lá embaixo. Atrás de mim alguns bancos, árvores, um cara ouvindo música com fones, e o sol. Na minha frente mais bancos, árvores, vidas correndo. Um cara de social sentado olhando para o nada. Uma moça de jeans ao celular e um cara que sentou no banco ao lado do meu, leu, tirou o tênis e ficou descalço, falou ao celular, colocou seus fones, ficou quieto e eu o peguei olhando várias vezes para mim, talvez estranhando o fato de escrever tanto. Passaram por mim muitas pessoas caminhando, inclusive um senhor muito vô e um casal de pai e filha três vezes. Isso tudo me fez pensar. Eram tantos mundos, tão diferentes, tão perto e nenhum interferia em nenhum. Frieza. Eu estava bem ali, tranqüila, à vontade. E fora dali o baralho, as buzinas, o estresse de São Paulo. A alguns metros, minha casa, a Carol se perguntando onde eu estava ou simplesmente nem se importando. Eu estava ali, com muitas árvores, uma diferente da outra, uma mais curiosa que a outra. Embaixo de uma de tronco fino, copa grande e folhas também finas. Um bichinho vermelho andou na minha blusa, no meu caderno, na minha bolsa, e nada me estressou. Escrevi por quase uma hora e ainda tinha tanto pra falar. Quando ergui a cabeça vi que só estávamos ali eu e o cara descalço, o restante já havia ido embora. Ainda havia pessoas no parquinho. Eram oito antes e apenas duas estavam de roupas coloridas, agora eram três e todas usavam branco. Ainda me sinto estranha, não sei definir, respirar fundo me faz bem. Mas ainda não sei o que sentir sobre o branco e o preto, preciso pensar. É claro pra mim que quero o branco, mas o preto parece mais forte; por mais que eu lute contra. Pensei em todas as pessoas que amo e quero comigo, pensei se também sou assim para elas, senti muito medo de perder cada uma delas e tive certeza que buscaria sim elas dentro da explosão. Senti, mais forte do que mais cedo sentada no meu puff, o calor do fogo. Senti saudades. Quis chorar e não consegui, chegou mais uma pessoa de branco no parquinho. Senti que existem sim coisas boas dentro de mim, a Patty branca, mas minha vista parece embaçar quando procuro seus lugares para puxá-las à tona. Olhei para um ponto fixo, minha visão escureceu, fechei os olhos. Vi um céu azul e lembrei de você me falando repetidas vezes que apostaria sua vida em mim. Fiquei sem saber o que fazer e sentir. Peguei algo para comer na bolsa e a cada amendoim que punha na boca tentava refletir, que era o que você queria. Nada saía. Vivia o agora, e só. Estava desligada. Era tão único, tão meu, só meu, queria guardar só pra mim cada minuto daquela tarde. Ainda não sabia se era tudo bom ou mau. O cara descalço estava ali do lado ainda. Olhava para mim e eu estava ou comendo olhando para o nada, ou escrevendo, ele virava. Todo mundo do parquinho já tinha ido embora, senti cheiro de praia. Tive vontade de ler o que tinha escrito mas evitei sem saber o motivo. O parque pareceu vazio então. Só eu e o cara descalço que agora estava de olhos fechados, o barulho da cidade e as vezes de alguma folha caindo no chão. Senti cheiro de flor de velório. Parecia que era para eu ir embora, mas não queria, continuei sentada. Levantei só pra jogar a embalagem do amendoim fora e no caminho senti minha perna tremer, meu corpo oscilar, mas estava de cabeça erguida e vi o cara descalço agora escrevendo. Me vi com um sorriso no rosto, me vi com um semblante diferente, me senti leve, respirei fundo e sentei. Minha cabeça pesou, pendeu. O cara escrevia mas já parara, devia ser qualquer anotação, mas eu não me cansava. Parecia que eu estava vendo melhor as cores agora. Por um momento pensei que tudo que estava escrevendo talvez não fizesse o menor sentido. Talvez uma frase nem tivesse mesmo a ver com a outra. Mas não liguei. Talvez ninguém leia isso, se bobear nem eu mesma ou você. Mas quero. Já era quase 17:30 e eu estava ali desde as 15:45. Tinha passado muito rápido. Me lembrei então de alguém e percebi que quando você havia me mandado naquele momento estranho pensar nas pessoas que amava, não havia pensado nesta, me senti desapegada e isso encheu meu olho de lágrimas, ainda não sei se de tristeza ou alegria. Começou a escurecer, a esfriar. Queria falar com a minha mãe, mas ao mesmo tempo não queria. Era tudo muito estranho. O cara ainda estava ali, ainda estava descalço, mas o parque parecia vazio, parecia que todo mundo estava indo para casa. Não sabia nada. Mas razões fisiológicas enfim me fizeram levantar e ir para o portão do parque, sem saber para onde ir, mas antes levei um susto com os papéis do cara caindo no chão, ele escrevia de novo quando saí. As luzes do parque já estavam se acendendo, e o guarda dando umas voltas por ali. Me deparando com a Paulista senti vontade de ir sentar no vão do MASP, mas minha vontade de fazer xixi nem me deu tempo de cogitar esta idéia. Sem perceber fui pra Cásper. Peguei sinais de pedestre fechados e reparei sempre ao meu lado um cara todo de preto me encarando, me desliguei disso. Parecia estar contra o fluxo, e sem fazer força não trombei em ninguém, mas sei que desviei. Normalmente me estresso com pessoas que simplesmente param no meio da calçada por aqui. Hoje quando fui me irritar, me subiu uma onde de calor que me deixou tonta e tudo logo passou. E foi assim também com outras situações pelo caminho. Parecia estar eu, sozinha em outra dimensão, e lá estava eu na Cásper correndo para o banheiro. Me olhei no espelho e estava branca, pálida. Depois sentei na porta da minha sala, no chão e voltei a escrever. A faculdade estava vazia, se ouvia as conversas, os passos, as portas e os elevadores, e eu ali, fugida, e ainda eram só 17:55. Eu tinha uma hora e cinco minutos para ficar ali, e não tinha nada para fazer. Sentia medo de novo de ficar sozinha, não tinha outra escolha. Só resolvi ir para um andar mais agitado onde eu não ouvisse minha respiração, desci. Mas quando estava guardando minhas coisas na bolsa, apareceu no corredor um cara da minha sala, sentou ali do comigo, fiquei sem saber o que fazer e depois de algumas frases consegui escapar. Chegando ao andar do refeitório vi mais gente conhecida, mas não falei com ninguém, me senti menos sozinha. Comprei uma coca e sentei. Li tudo o que havia escrito, parecia um diário, era tão verdadeiro, e senti muita coisa de novo. Uma das meninas do meu grupo sentou comigo na mesa, conversamos uns 2 minutos e ela subiu. Senti necessidade de me abrir, voltei aqui a escrever, mas parece que estou mais vazia do que nunca. Mas estou, acho que querendo ou não, o mínimo, melhor. Tenho medo de quebrar a cara com a duração disso. Comecei a me sentir mal de novo onde estava. Senti vontade de ir a um dos laboratórios de redação ver meu Twitter, mas com a minha coca não dava. Me lembrei: sempre fui muito apegada a cheiros, e depois daquilo parecia mais sensível, sentia tudo mais intenso, todos eram bons e me fazia lembrar coisas. A circulação por ali estava grande, o burburinho também, me senti realmente muito mal. Fugi de novo. Na sala, só duas pessoas. Fui a terceira a chegar. Deitei a cabeça na mesa e ali fiquei. Nada. Mais uma pessoa chegou. E nada. Por hora é isso. Continuo perdida, sem saber se sim ou se não. Se bem ou se mal. Torço para ficar bem e fim. Tenho medo, e às vezes queria ter aquela força que tive para não chorar feito uma criança na sua frente hoje à tarde. Ainda me sinto carente demais, dependente demais, frágil demais. Por mim escrevia eternamente. Me sinto solta assim. Queria estar em casa, e sem me preocupar com quem vai chegar, a qualquer hora.

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